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Quid pro quo

O blog do Fernando Serapião, editor da Monolito

Flieg e Lina

 

Lina dirigia o fotógrafo?

No caso do Masp, sim. Não atrapalhava nem um pouco. Quando as coisas funcionavam, nos dávamos muito bem. Houve um caso em que saiu fogo. Do ponto de vista dela, talvez com razão. Foi quando Lina esteve na Bahia, no Museu do Solar do Unhão. Ela tinha me encomendado uma fotomontagem do Masp. Eu estava com outros trabalhos, e um dia resolvi começá-lo. Tirei fotos do parque, porque eu precisava de imagens dele visto debaixo da maquete para fazer o fundo. Faltava fotografar a maquete. Quando Lina voltou, foi razoavelmente desagradável. Não foi fácil

Este é um trecho de uma entrevista que fiz com o fotógrafo alemão Hans Gunter Flieg, radicado em São Paulo desde 1939. Amanhã (dia 20 de setembro), a partir das 11h, o MAC da USP e o IMS abrem uma exposição sobre ele, com curadoria do Sergio Burgi. Ao que parece, está impagável.

Em São Paulo, Flieg fotografou a produção industrial e, de quebra, muitos edifícios. Na mesma entrevista – realizada com Nelson Kon e que durou cerca de quatro horas! – ele disse que fez, também para Lina, a fotomontagem “do projeto do museu na praia de São Vicente, que felizmente nunca saiu da prancheta porque eu sei o que teria acontecido com os quadros no caso de falha no ar-condicionado”.

Sexta, 19/09/2014

O dia de hoje e o livro novo de Sorkin

“Os atos de bondade e amizade multiplicaram, e o comportamento do público tornou-se grave e respeitoso. Consolávamos uns aos outros com pequenas trocas de informações e sentimentos e mediante o poderoso igualitarismo da catástrofe. A reação oficial da cidade foi magnífica, espantosa. As ruas abaixo da rua 14 foram fechadas para o trânsito e somente moradores podiam passar. O resultado foi uma calma soturna, enquanto as pessoas, silenciosas e comedidas, voltavam a tomar posse das via públicas como depois de uma pesada nevasca. O tempo, indiferente a tudo, estava bonito e a cidade, desse modo, mostrou-se em sua melhor forma: silenciosa, livre de automóveis, econômica, solícita. Foi só quando o vento mudou e o horrível cheiro de queimado invadiu o ar que tivemos um lembrete sensorial do inferno logo ali ao lado, desmentindo a tranquilidade. E as cinzas caíram em todas as partes.”

Esse é um trecho do artigo ‘O que resta’, um dos 76 textos que compõe De tudo um pouco: sobre edifícios e cidades, de Michael Sorkin (do original All over the Map: Writing on Building and Cities, de 2011). Sem estardalhaço, a edição em português foi lançada em julho passado pela Martins Fontes. Trata-se de uma compilação de artigos escritos, principalmente, para a Architectural Record entre 2000 e 2010. Alguns, sobretudo os primeiros (tal como o trecho descrito), giram entorno do 11 de setembro, sobre qual o autor dedicou outro livro (a imagem que ilustra o post é uma proposta para proteger os escombros feita por ele, que se divide entre o ensino, a prática profissional e a crítica).

Ainda não terminei a leitura mas, pelo que li, é altamente recomendável. As flores no discreto monumento perto da sede da Monolito em homenagem as três vítimas paulistanas mortas com o ataque ao WTC, em Nova York, não nos deixa esquecer que dia é hoje. 

Quinta, 11/09/2014

Crítico de arquitetura do New York Times elogia Lelé

Michael Kimmelman, crítico de arquitetura do New York Times, esteve em maio passado no Rio de Janeiro para um debate com Richard Serra em evento do Arq.Futuro (na foto abaixo, ambos se preparam para a conversa; a imagem acima foi reproduzida do vídeo-homenagem do Arq.Futuro ao arquiteto brasileiro). Depois disso, publicou no Times um texto sobre o desenho de hospitais – reproduzido pela Folha nesta semana -, onde faz um elogio rasgado a Lelé. Leiam:

“Frequentemente ignorados pelos arquitetos mais famosos, deixando a cargo de especialistas corporativos a construção de prédios marcados pela insensibilidade, os hospitais representam uma fronteira crítica do design. Uma entidade beneficente britânica que promove o atendimento a pacientes com câncer, Maggie's Centres, convocou uma série de arquitetos famosos, como Rem Koolhaas, Frank Gehry, Snohetta e Norman Foster, para projetar hospitais. No Brasil, o arquiteto e urbanista João Filgueiras Lima, conhecido como Lelé (morto em maio, aos 82 anos), dedicou seus últimos anos a uma série notável de hospitais de reabilitação - simples, arejados e visualmente impactantes”.

Isso agora não muda muita coisa, mas tenho a nítida sensação que Lelé não foi reconhecido como deveria. Se ele tivesse ibope internacional, não teria passado o que passou no final da vida. Isso ocorreu apesar do esforço de alguns entusiastas, desde críticos de arquitetura até simples admiradores dele. O que falhou? 

Sexta, 05/09/2014

A expografia da 31a Bienal

Cumprindo seu papel, a 31a Bienal já gerou muita polêmica mesmo antes de abrir. A principal está relacionada ao patrocínio de Israel que foi contestado por artista palestinos, líderes de um abaixo assinado que circulou entre os participantes. É a bienal do conflito, cujo tema é Como(...) coisas que não existe, com muitos trabalhos que gravitam entorno do tema religioso (acima, o trabalho de Éder Oliveira, que retrata detentos de presídios paraenses).

Mas meu tema é a montagem. O responsável pela expografia é o arquiteto israelense Oren Sagiv (foto abaixo) em equipe composta também pelos arquitetos Anna Helena Villela e Roi Zach. O negócio do cara é desenhar exposições - ele criou, por exemplo, os espaços da Quadrienal de Praga de 2011. Ele também é um dos cinco curadores do evento, liderados pelo escocês Charles Esche, que trouxe-o a tira-colo e essa proximidade tabelinha fez bem a montagem. 

Já ouvi muitas opiniões entusiasmadas – “pela primeira vez em não me perdi no prédio”- e, algumas, nem tanto: “parece uma Casa Cor”. Na segunda-feira passada eu visitei a montagem pela primeira vez e gostei do que vi. Trata-se de um projeto expográfico com personalidade que, ao mesmo tempo e de forma até contraditória, induz o visitante a ter uma rara uma leitura do pavilhão de Niemeyer e propõe espaços que modificam completamente a percepção espacial estabelecida. Creio que, daqui a algumas décadas, a montagem ajudará o público a se lembrar desta bienal.

Para que isso fosse possível, Sagiv dividiu o edifício em três partes articuladas por um núcleo central, denominada de válvula, que fragmenta o edifício em dois.

A primeira parte, batizada de Parque, fica no nível mais baixo, na mesma cota da marquise. Ali, antes da catraca, a ideia é que o visitante perceba esse piso como uma continuidade da área verde. Diga-se de passagem, Niemeyer havia pensado este espaço sem caixilhos. O destaque é uma plataforma de madeira com desenho sinuoso, que pretende abrigar diferentes tipos de reuniões (acima, o artista chinês Qiu Zhijie dá os retoques finais em Map, sua gigantesca obra que fica na área Parque).

Dividida em três pisos, a segunda parte ganhou o nome de Rampa, e, obviamente, se estende ao redor das rampas e do vazio com desenho sinuoso. Os trabalhos expostos neste trecho dialogam com o prédio e com as obras vizinhas, mantendo configurações de ‘objetos’ no meio do vazio arquitetônico. A obra Dark Clouds of the Future (do indiano Prabhakar Pachpute, que também criou a imagem que dá identidade visual ao evento), por exemplo, faz um contraponto vertical com o edifício, se estendendo pelos três pisos (abaixo, obra da chilena Voluspa Jarpa dialoga com o espaço na área Rampa).

A terceira parte é a Colunas, que ocupa metade do primeiro piso. Este espaço abriga muitos vídeos e obras em salas semifechadas, criando uma configuração mais próxima de um museu. Do ponto de vista espacial, destaca-se o corredor central, que imprimi uma leitura curiosa da colunata de Niemeyer (imagem abaixo), que estabelece um rítmo assimétrico a circulação.

Outro ponto interessante são alguns vazios, fechados com telas, que cortam várias salas e dão a dimensão do edifício em ambos os sentidos, as vezes, como na imagem abaixo, aprisionando a colunata de Niemeyer.

Por fim, a Válvula central é um espaço maciço que abriga cinco salas especiais e cria uma barreira física e escura no meio do pavilhão. 

Ficam ali obras de Etcétera..., Edward Krasinski, Yael Bartana – o já polêmico Inferno (imagem acima) -, Jonas Staal (que cria uma relação entre o desenho cruciforme de Brasília e uma estrela de uma cidade espírita) e Mark Lewis. A escada rolante do último piso é o acesso a essa última obra, criando uma situação espacial surpreendente (veja abaixo).

O evento será aberta ao público no próximo sábado. Boa visita!

 

Quarta, 03/09/2014

Lembranças de uma conversa com Sergio Rodrigues

–No Chile, vi um hotel com poltronas Mole produzidas por lá mesmo. Quer dizer, muita gente enriqueceu com esse negócio, disse-me Sergio Rodrigues em uma entrevista realizada há 11 anos.

–O senhor ganhou dinheiro com a Mole?, perguntei, sem imaginar a surpreendente resposta.

–Recebi apenas 200 dólares, que era o prêmio do concurso e já estava amarrado à venda dos direitos autorais, ele confessou.

Hoje pela manhã, Sergio se foi. Era um cara incrível, afável e bem humorado - como suas peças -, um homem moderno-barroco, pesado e cheio de graça. Além dos móveis, sempre admirei o desenho que ele fazia. Não os desenhos de criação do mobiliário, mas sobretudo dos ambientes que ele imaginava, tal como a imagem acima. Vendo-a, é inevitável lembrar do traço de seu pai, Roberto Rodrigues, autor da obra abaixo e apontado por Pietro Maria Bardi como elo de ligação entre o art déco e o moderno.

Na última pergunta da entrevista, realizada em sua loja em Botafogo (que parecia um sebo de peças de Sergio Rodrigues) perguntei sobre o desenho: E qual sua paixão maior: a madeira ou o desenho?

–Claro que o desenho. Se não tiver a madeira, parte-se para o plástico, a estrutura metálica. Sem o desenho não se faz nada. Mas eu gosto dos dois juntos.

Segunda, 01/09/2014


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